Extração vegetal movimenta R$ 62 milhões no RN, e a lenha responde por quase três quartos
25/09/2026

Extração de madeira para lenha e carvão, atividade presente em quase todos os municípios potiguares e responsável por 82,68% do valor do extrativismo no Estado — Ermínio Fernandes/O Correio de Hoje
A lenha foi retirada em 130 dos 167 municípios potiguares; os alimentos nativos cresceram 16,59% em volume e a exploração da carnaúba perdeu força
A extração vegetal no Rio Grande do Norte fechou 2025 com mais de R$ 62 milhões em valor de produção. O resultado ficou 5,8% acima dos R$ 58,6 milhões que a atividade havia apurado um ano antes. A exploração permanece concentrada nos produtos madeireiros, e dentro desse grupo o que sustenta o número é a lenha: sozinho, esse produto respondeu por 73,36% de todo o dinheiro gerado no Estado.
Os dados saíram da Pesquisa da Produção da Extração Vegetal e da Silvicultura (PEVS) referente a 2025, divulgada na quinta-feira 24. Quem a produz é o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A pesquisa mede, município por município, tanto a exploração de recursos vegetais nativos quanto a produção que sai das florestas plantadas em todo o país.
Só de lenha, o território potiguar produziu 1,11 milhão de metros cúbicos ao longo do ano passado inteiro. O valor de produção correspondente a essa quantidade passou de R$ 45,5 milhões, a maior cifra de um único produto dentro do extrativismo potiguar. Reunidos os três produtos madeireiros — lenha, madeira em tora e carvão vegetal —, o grupo ficou com 82,68% do valor total que a extração vegetal gerou no Estado.
O alcance territorial da atividade também impressiona, e é aí que a lenha mostra o tamanho que tem por aqui. A retirada do produto foi registrada em 130 dos 167 municípios potiguares, o equivalente a quase 78% das cidades do Rio Grande do Norte. Em valor de produção, Alexandria ficou na frente, com R$ 8,55 milhões. Santa Cruz vem logo atrás, com R$ 6,50 milhões; Caraúbas fecha o trio, com R$ 5,25 milhões. Juntos, os três movimentaram R$ 20,3 milhões com o produto — perto de 45% de tudo o que a lenha rendeu no Rio Grande do Norte.
Esse desenho separa o Estado da maior parte da produção florestal brasileira, em que as florestas plantadas têm participação bem maior. No país, a soma de silvicultura e extração vegetal chegou a R$ 47,9 bilhões em 2025, alta de 6,7% sobre 2024 e o maior valor de toda a série histórica da pesquisa. Quem puxou esse avanço nacional foi a silvicultura, que se apoia em florestas plantadas. Aqui no Estado, o retrato é o inverso: quem pesa é a retirada de produtos da vegetação nativa.
Já a madeira em tora vinda do extrativismo teve participação menor no conjunto. Foram mais de 13,2 mil metros cúbicos produzidos aqui em 2025, o que correspondeu a R$ 706 mil em valor de produção. Macaíba concentrou cerca de dois terços desse volume: foram R$ 344 mil movimentados, tirados de 8,6 mil metros cúbicos.
Quase tão espalhado pelo território quanto a lenha ficou o outro produto madeireiro do grupo, o carvão vegetal. Houve produção em 118 municípios, num total de 3.578 toneladas ao longo do ano, com valor acima de R$ 5,07 milhões.
Umbu e mangaba puxam os alimentos
Os produtos madeireiros concentram a maior parcela financeira da extração vegetal potiguar, mas o crescimento mais rápido em volume veio de outra ponta. O grupo de alimentos rendeu 1.750 toneladas em 2025, contra as 1.501 toneladas do ano anterior, um aumento de 16,59%. Em valor de produção, esse segmento passou dos R$ 4,15 milhões no Rio Grande do Norte.
Quem liderou em quantidade dentro desse segmento foi o umbu, com 825 toneladas e valor de produção acima de R$ 1,19 milhão. A colheita do fruto foi registrada em 43 municípios do Rio Grande do Norte, mas dois deles ficaram com a maior fatia do total. São Miguel do Gostoso respondeu por 300 toneladas, ou 36,4% do total estadual, e Pedra Grande produziu outras 200 toneladas. Somadas, as duas cidades concentraram mais de 60% do umbu que o Estado extraiu no ano.
Em quantidade, a mangaba ficou em segundo lugar entre os alimentos, com 605 toneladas. Em dinheiro, passou à frente: rendeu R$ 2,06 milhões, algo como R$ 870 mil acima do umbu, e isso com um volume 27% inferior. A concentração geográfica do fruto é ainda maior. Das 605 toneladas retiradas no Estado, 530 saíram de Nísia Floresta, o que deixa o município com quase 88% do volume potiguar.
O que explica a inversão é o preço, e os números indicam uma diferença clara no valor obtido pelos dois principais frutos do extrativismo alimentar potiguar. Cada tonelada de umbu correspondeu, em média, a algo próximo de R$ 1,4 mil em valor de produção. A de mangaba ficou perto de R$ 3,4 mil por tonelada, mais que o dobro.
Entre os alimentos pesquisados, vêm depois a castanha de caju, com 107 toneladas e R$ 440 mil, e o cajá, com 22 toneladas e R$ 71 mil. Os demais produtos alimentícios pesquisados responderam, somados, por aproximadamente R$ 380 mil. O grupo cresceu num ano em que o valor total da extração vegetal também subiu. A diferença está no peso de cada parte: os alimentos ocupam uma parcela menor da atividade potiguar, e é a madeira que continua definindo o resultado geral.
A carnaúba na contramão
Na contramão do que aconteceu com os alimentos, a carnaúba perdeu força em 2025. A quantidade que vai para a fabricação de pó e de cera saiu de 428 toneladas, em 2024, para 381 toneladas no ano passado, um recuo de 10,98%. Quase todo o volume registrado foi de pó de carnaúba, 379 toneladas. Ao todo, 16 municípios potiguares registraram a atividade em 2025, e entre os principais produtores aparecem três deles: Upanema, Ipanguaçu e Assú.
A queda também chegou ao valor de produção da carnaúba. A atividade movimentou, pelos dados que o IBGE informou no recorte estadual, R$ 6,59 milhões em 2025 — menos do que havia movimentado no ano anterior.
A carnaúba alimenta cadeias industriais que vão além da produção primária. A cera obtida das folhas vai parar em embalagens, medicamentos e cosméticos, entre outros segmentos, e é isso que liga o extrativismo feito nos municípios a mercados de indústria. Tudo isso contrasta com a alta geral do extrativismo vegetal no Estado: enquanto o setor inteiro crescia 5,8% em valor, a carnaúba terminou o período perdendo tanto a quantidade retirada quanto a receita gerada.
Onde o eucalipto aparece
Outro recorte que a PEVS permite é o que separa a retirada de vegetação nativa da silvicultura — o cultivo de florestas com fim econômico. Os dados potiguares mostram que o eucalipto ainda produz pouco quando a comparação é com o volume de lenha que sai do extrativismo.
A produção de lenha de eucalipto somou 1,5 mil metros cúbicos em 2025, avaliados em R$ 120 mil. Pureza ficou com 1,2 mil metros cúbicos e movimentou R$ 96 mil, o equivalente a 80% do total. Os 300 metros cúbicos restantes saíram de Macaíba e foram avaliados em R$ 24 mil.
Comparado ao extrativismo, o número é minúsculo. Contra esses 1,5 mil metros cúbicos de lenha das florestas plantadas, a retirada do extrativismo somou 1,11 milhão de metros cúbicos, cerca de 740 vezes mais.
Pureza concentrou ainda tudo o que foi informado de madeira em tora de eucalipto para outras finalidades: R$ 2,4 milhões em valor de produção, tirados de 6 mil metros cúbicos.
No cenário brasileiro, a silvicultura tem outra dimensão. Somando florestas plantadas e extrativismo, a produção florestal nacional alcançou os R$ 47,9 bilhões de 2025 — um novo recorde, depois dos R$ 44,3 bilhões de 2024, com crescimento de 6,7%. Nas áreas plantadas do país, o eucalipto segue como espécie principal, e delas sai matéria-prima para siderurgia, energia, produtos de madeira e papel e celulose. O desenho potiguar, porém, permanece outro: quem manda é o extrativismo e, dentro dele, a lenha nativa.
Realizada todo ano pelo IBGE, a PEVS levanta quanto se produziu e quanto isso valeu, tanto na vegetação natural como nas florestas plantadas. A edição divulgada na quinta-feira tem 2025 como período de referência. Do lado do extrativismo, a pesquisa acompanha grupos como madeireiros, oleaginosos, borrachas, fibras, ceras e produtos alimentícios. Do lado da silvicultura, contabiliza resinas, carvão vegetal, lenha e madeira em tora vindos das florestas plantadas.
Os resultados de 2025 deixam duas marcas do setor potiguar. Uma delas é a dispersão pelo território: o carvão vegetal aparece em 118 municípios, e só a extração de lenha chega a 130. A outra é a concentração do dinheiro nos madeireiros, responsáveis por mais de oito em cada dez reais que o extrativismo vegetal do Estado gera.
Dentro da própria atividade extrativa, os movimentos apontados pelos números foram para lados diferentes. A silvicultura de eucalipto seguiu concentrada sobretudo em Pureza e Macaíba; a carnaúba perdeu volume; e a produção de alimentos cresceu 16,59%, puxada por umbu e mangaba.
No resultado agregado de 2025, porém, prevaleceu a expansão. Em um ano, o valor da extração vegetal potiguar subiu dos R$ 58,6 milhões para mais de R$ 62 milhões — e quase três quartos desse dinheiro seguiram vindo de um único produto: a lenha.
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