IGP-DI volta a subir em agosto e interrompe dois meses de deflação, puxado pelas commodities agropecuárias
10/09/2026

Só a soja subiu 7,42%, mas dentro do agro houve alta no milho e gado — Reprodução/Internet
Atacado virou o jogo com soja em alta de 7,42%, boi de 3,74% e milho de 4,89%, enquanto o bônus de Itaipu derrubou a conta de luz em cerca de 8%
Foram dois meses seguidos de deflação, e a alta das commodities agrícolas veio interromper a sequência. O Índice Geral de Preços – Disponibilidade Interna, o IGP-DI, subiu 0,06% em agosto. Nos dois meses anteriores ele havia recuado — 0,79% em junho, 0,86% em julho. Quem calcula o indicador é o Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas, o FGV IBRE. O que o número mostra é uma troca de peças dentro da inflação: enquanto o preço subia no atacado, o consumidor ainda encontrava algum alívio, e esse alívio veio principalmente da conta de energia elétrica.
Com agosto contabilizado, o IGP-DI soma 2,19% desde janeiro e 2,63% em 12 meses. Um ano antes, em agosto de 2025, o indicador tinha avançado 0,20% no mês, e a inflação que carregava em 12 meses era de 3%. O número deste ano, aliás, praticamente coincidiu com o que o mercado esperava: a mediana das projeções apontava para avanço de 0,05%.
No atacado está a mudança principal. O Índice de Preços ao Produtor Amplo, o IPA-DI, que responde por 60% do IGP-DI, trocou a queda de 1,31% registrada em julho por uma alta de 0,10% no mês passado. Dentro dele, o produto agropecuário avançou 2,92%, enquanto o industrial ainda recuou 0,85%. Já a matéria-prima bruta virou o jogo: vinha de deflação de 3,02% e terminou agosto com alta de 1,43%.
Soja, boi e milho estiveram entre as principais pressões do mês. Em agosto, a soja em grão subiu 7,42%, na esteira dos 7,07% de julho. Os bovinos tiveram alta de 3,74%, revertendo queda de 3,61% no mês anterior. E o milho em grão avançou 4,89%, depois de recuar 1,73%. A carne bovina também apareceu na lista dos produtos que empurraram o atacado para cima.
“Os mesmos itens que ajudaram o atacado a mostrar taxa negativa no mês de julho estão agora contribuindo para a alta do IPA-DI em agosto”, afirma André Braz, economista do FGV IBRE.
Essa reversão do preço agrícola importa porque é o atacado que responde pela maior fatia do IGP-DI. Basta um movimento relativamente pequeno do IPA para que o impacto seja suficiente e altere a direção do índice geral. E, segundo Braz, a aparente estabilidade esconde comportamentos distintos entre os componentes. “O IGP-DI ficou próximo da estabilidade em agosto, mas houve mudança importante na composição do índice”, disse.
As contribuições individuais deixam isso mais claro. A soja em grão acrescentou 0,48 ponto percentual ao IPA em agosto; os bovinos entraram com 0,18 ponto; e o milho, com 0,11 ponto. No sentido oposto, a cana-de-açúcar tirou 0,08 ponto, o minério de ferro subtraiu 0,06 ponto e o feijão em grão, 0,05 ponto.
A indústria compensou parcialmente a alta agrícola. O produto industrial caiu 0,85% em agosto, vindo de uma queda bem maior, de 1,99%, registrada em julho. Entre esses itens, o minério de ferro e o querosene de aviação puxaram para baixo, ao passo que o farelo de soja e a carne bovina empurraram para cima. É essa combinação que explica por que o IPA-DI avançou só 0,10%, mesmo com os agropecuários subindo 2,92%. No acumulado de 2026, o preço ao produtor registra alta de 1,56%, e a variação em 12 meses chega a 1,65%.
O que as commodities farão nos próximos meses passa a ser, por isso, um ponto de atenção. O economista cita a condição climática mais extrema como um dos fatores capazes de mexer na produção agrícola e, por consequência, no preço. “Estamos registrando ondas de frio e de chuva. Isso já começou a afetar agricultura”, afirmou o economista. A chance de problema na lavoura acrescenta, assim, uma dose de incerteza à trajetória que o indicador seguirá daqui até dezembro.
Se o atacado devolveu o IGP-DI ao terreno positivo, o que o consumidor pagou puxou para o lado oposto. Responsável por 30% do indicador geral, o Índice de Preços ao Consumidor – Disponibilidade Interna, o IPC-DI, aprofundou a deflação: em julho ele havia recuado 0,08%; em agosto, 0,37%. Na conta de 12 meses, ainda assim, acumula avanço de 3,93%.
A energia elétrica residencial foi o principal fator dessa redução. A queda da tarifa foi de cerca de 8% no mês — e em julho essa mesma tarifa havia subido 0,39%. Por trás do movimento está o bônus de Itaipu — um desconto que entra automaticamente na conta dos consumidores beneficiados e é financiado pelo excedente financeiro da hidrelétrica binacional.
Foi a energia, portanto, a maior contribuição negativa dentro do índice ao consumidor. Descendo ao detalhe, a tarifa residencial retirou sozinha 0,32 ponto percentual da inflação medida no IPC-DI. A passagem aérea também ajudou, com 0,15 ponto negativo, e a batata-inglesa tirou 0,06 ponto. O grupo Habitação, que a eletricidade afeta diretamente, tinha subido 0,39% em julho e caiu 1,21% em agosto. Comunicação recuou 2,19%; Educação, Leitura e Recreação caiu 1,44%; Vestuário cedeu 0,58%; e a Alimentação registrou deflação de 0,47%. Três grupos foram no sentido inverso: Despesas Diversas, com alta de 3,38%; Saúde e Cuidados Pessoais, com 0,27%; e Transportes, que teve elevação de 0,08%. O item de maior contribuição positiva ao índice, entre os que pesaram no bolso, foi o cigarro: 0,18 ponto percentual.
O alívio da eletricidade, porém, tem prazo curto. O bônus de Itaipu não produzirá o mesmo efeito em setembro, o que deve reverter a contribuição da tarifa residencial e pressionar o IPC-DI outra vez. “Essa aceleração [no preço da energia] fará com que tenhamos IPC-DI mais alto em setembro e com uma influência maior dentro do IGP-DI”, disse Braz. “Acredito que a tendência do IGP-DI seja de aceleração”, acrescentou.
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