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RN teve 89 adoções em 2025; 64% envolveram crianças de até 4 anos

16/07/2026


O Rio Grande do Norte registrou 89 adoções de crianças e adolescentes em 2025, e quase dois terços delas envolveram crianças de até 4 anos de idade. Dados do Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA), do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), mostram que 57 das 89 adoções ocorreram com crianças de até quatro anos, o equivalente a cerca de 64% do total. O cenário se repete em 2026: até 14 de julho, o estado contabilizava 32 adoções, sendo 18 delas de crianças de até dois anos.

Os números colocam o Rio Grande do Norte na quarta posição do Nordeste em quantidade de adoções realizadas em 2025. O estado ficou atrás apenas de Pernambuco (218), Bahia (131) e Ceará (108). Na sequência aparecem Paraíba (60), Alagoas (56), Piauí (48), Maranhão (31) e Sergipe (22). Em todo o Nordeste foram registradas 763 adoções no ano passado.

No Brasil, o Sistema Nacional de Adoção contabilizou 5.608 adoções em 2025, das quais 2.543 envolveram crianças de até dois anos. Apenas 11 adolescentes com mais de 16 anos foram adotados em todo o País. Em 2026, até a atualização realizada em 14 de julho, o painel registrava 2.047 adoções.

Para a presidente do Acalanto Natal, Mariana Vilanova, o predomínio das adoções de bebês está ligado a uma construção cultural que ainda influencia o perfil buscado pelas famílias. “Esse é um reflexo cultural profundo e histórico. Muitos pretendentes, ao entrarem na fila de adoção, trazem consigo o desejo de vivenciar os primeiros passos, a primeira palavra, a introdução alimentar. Há também o receio infundado de que crianças maiores já tragam ‘vícios de criação’ ou traumas difíceis de lidar, que são tabus da adoção, não necessariamente uma verdade absoluta.”, conta.

Segundo ela, o trabalho desenvolvido pelo grupo busca mostrar que a formação dos vínculos familiares não depende da idade. “Nosso papel no Acalanto Natal é desmistificar esse medo. O vínculo afetivo não se estabelece pela idade, mas pela convivência, pelo afeto e pela segurança que a família oferece.”

Perfil das crianças adotadas

Além da predominância das crianças pequenas, o levantamento mostra que 68,5% das crianças e adolescentes adotados em 2025 eram pardos, 22,5% eram brancos e 7,9%, pretos. Em 2026, os percentuais permaneceram semelhantes: 68,8% pardos, 25% brancos, cerca de 3% pretos.

Os meninos também representam a maioria das adoções. Em 2025, eles corresponderam a 53,9% dos adotados, enquanto as meninas representaram 46,1%. Neste ano, os percentuais são de 56,3% para meninos e 43,8% para meninas.

Na distribuição por idade, o levantamento mostra que, em 2025, além das 40 adoções de crianças de até dois anos, foram registradas 17 entre 2 e 4 anos, 11 entre 4 e 6 anos, seis entre 6 e 8 anos, seis entre 8 e 10 anos, quatro entre 10 e 12 anos e cinco entre 12 e 14 anos.

Em 2026, até julho, foram 18 adoções de crianças de até dois anos, cinco entre 6 e 8 anos, três entre 4 e 6 anos, duas entre 8 e 10 anos, duas entre 14 e 16 anos, uma entre 10 e 12 anos e uma entre 12 e 14 anos.

Para Mariana Vilanova, o Acalanto evita utilizar a expressão “adoção tardia”. “Preferimos falar em adoções necessárias. A barreira ainda é o preconceito e o desconhecimento. Os pretendentes costumam idealizar o filho que virá e podem acreditar que uma criança maior ou um adolescente será mais resistente ao amor ou apresentará problemas comportamentais graves, o que não é uma verdade absoluta.”

Ela afirma que adolescentes institucionalizados convivem diariamente com a diminuição das chances de ganhar uma família. “A realidade desses adolescentes é marcada por uma contagem regressiva silenciosa e dolorosa. À medida que o tempo passa e eles completam 12, 14, 16 anos dentro de uma instituição de acolhimento, a expectativa de ganhar uma família vai diminuindo.”

Segundo a presidente do grupo, muitos chegam aos 18 anos sem terem sido adotados. “Temos um trabalho voltado a prepará-los para a vida além da instituição, uma vez que, ao completarem 18 anos, seguirão para a vida em sociedade, muitas vezes sozinhos.”

O Acalanto realiza encontros periódicos com famílias habilitadas para ampliar o perfil aceito pelos pretendentes. “Realizamos bimestralmente reuniões públicas, chamadas ‘Papo em Família’, com rodas de conversa, suporte e troca de experiências. Levamos depoimentos de famílias e mostramos histórias de sucesso para desconstruir esses preconceitos.”

Irmãos e crianças com deficiência esperam mais

Os dados do CNJ mostram que a idade não é o único fator que influencia o tempo de espera por uma família. Crianças que fazem parte de grupos de irmãos ou possuem deficiência também encontram mais dificuldades para serem adotadas.

Em 2025, 56 das 89 crianças adotadas (62,9%) não tinham irmãos. Outras 13 tinham um irmão, 13 pertenciam a grupos de dois irmãos, cinco integravam grupos de três irmãos e duas faziam parte de grupos com mais de três irmãos. Até julho de 2026, 23 das 32 crianças adotadas (71,8%) não tinham irmãos, enquanto oito tinham um irmão e uma integrava um grupo de dois irmãos.

Segundo Mariana Vilanova, a preservação dos vínculos familiares faz com que muitos grupos permaneçam mais tempo nas instituições. “A existência de grupos de irmãos continua sendo um dos grandes gargalos do sistema de adoção no Brasil. A legislação brasileira prioriza, com total razão, a não separação desses grupos para preservar os vínculos biológicos e afetivos.”

Ela observa que, em alguns casos, irmãos são adotados por famílias diferentes, desde que seja garantida a convivência entre eles. Outro grupo que enfrenta uma espera prolongada é formado por crianças com deficiência, síndromes ou doenças.

No RN, em 2025, 2,2% das crianças adotadas tinham deficiência intelectual e 10,1% apresentavam algum problema de saúde. Em 2026, 6,3% possuíam deficiência intelectual e o mesmo percentual apresentava doença infectocontagiosa. Nenhuma das 32 crianças adotadas neste ano possuía outro problema de saúde registrado.

“Infelizmente, o tempo de permanência de crianças com deficiências, síndromes, paralisias ou doenças infectocontagiosas em instituições é severamente maior. Muitas sequer são adotadas. O medo dos custos com tratamentos médicos, a falta de preparo para lidar com essas condições e o preconceito fazem com que permaneçam nos abrigos até a maioridade.”, conta.

 

Mariana deixa um apelo às famílias habilitadas à adoção. “A mensagem que o Acalanto Natal deixa é: abram seus corações dos perfis idealizados e permitam-se surpreender pelo amor real. Quando limitamos demais o perfil, não estamos apenas fechando as portas para uma criança que espera no acolhimento. Estamos atrasando o nosso próprio encontro com o filho que nascerá para nós. O amor não escolhe idade, ele escolhe o encontro”.

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