Geração Z resgata hábitos analógicos e transforma o vintage em símbolo de identidade
03/06/2026

Discos de vinil, câmeras antigas e roupas de brechó voltaram a atrair jovens da Geração Z - Foto: Belita Lira
Em meio à hiperconexão e ao excesso de estímulos, jovens encontram no passado uma forma de desacelerar, criar e se reconhecer
Em uma geração marcada pela velocidade, pela hiperconexão e pela lógica dos algoritmos, cresce o interesse de jovens por tudo aquilo que exige exatamente o contrário: tempo, presença e materialidade. O curioso é que grande parte dessas referências vem de um passado que eles nunca viveram.
Discos de vinil, câmeras digitais antigas, roupas de brechó, objetos analógicos e hobbies manuais voltaram a ocupar espaço. Não como resgate nostálgico tradicional, mas como escolha estética. Segundo a Vinyl Alliance, mais de 70% dos compradores de vinil hoje têm entre 18 e 24 anos. O dado ajuda a explicar uma mudança significativa: o disco deixou de ser apenas um formato musical e passou a funcionar como símbolo de gosto, de identidade e de curadoria pessoal.
Esse movimento também se reflete no mercado. Um relatório da Associação Americana da Indústria de Gravação mostrou que, em 2022, foram vendidos mais de 41 milhões de discos de vinil, superando os 33 milhões de CDs. Foi a primeira vez desde 1987 que o formato ultrapassou o digital físico mais recente, movimentando mais de R$ 6 milhões. Mais do que um retorno, trata-se de uma reinvenção do valor do objeto.
Para a psicóloga Luan Fernandes, esse comportamento revela uma resposta direta ao contexto atual.
“Nascidos entre 1997 e 2012, os jovens da Geração Z são os legítimos nativos digitais. Cresceram com o mundo na palma da mão, em uma realidade onde a conexão é constante e a informação, instantânea. No entanto, um movimento curioso e potente vem ganhando força: em vez de olharem apenas para o futuro tecnológico, esses jovens estão resgatando experiências, estéticas e hobbies de décadas que sequer viveram”, conta.
A explicação passa por um tipo específico de cansaço, não apenas físico, mas mental e sensorial.
“Vivemos em um tempo em que as 24 horas do dia parecem insuficientes. A cultura da produtividade excessiva e o imediatismo das redes sociais criaram um ambiente digital que pode ser, muitas vezes, assustador. Como resposta, a Geração Z busca a ‘pressa pela calma’”, afirma a especialista.
Essa busca se manifesta na prática. Diferente da experiência digital, onde tudo é rápido, previsível e mediado por sugestões automáticas, o consumo retrô exige participação ativa. Escolher um disco, posicionar a agulha, ouvir um álbum inteiro sem interrupções. Fotografar sem ver o resultado imediato. Criar algo com as próprias mãos.
“O ‘fazer’ manual devolve ao jovem o domínio sobre o processo”, explica a psicóloga.
Esse retorno ao processo aparece também no crescimento de atividades como tricô, marcenaria e fotografia analógica, práticas que exigem tempo, repetição e atenção.
Há ainda uma dimensão de controle envolvida. Em um ambiente digital onde o usuário é constantemente conduzido, o analógico surge como uma forma de retomada da autonomia.
“Existe uma sensação de perda de domínio próprio no mundo digital, onde somos conduzidos o tempo todo. Regredir para práticas analógicas é uma forma inconsciente de recuperar o controle sobre a maneira de pensar, agir e criar”, conta.
Mas talvez o aspecto mais interessante desse movimento seja emocional. A psicologia e a psicanálise apontam que o contato com o passado, mesmo que não vivido, pode funcionar como ferramenta de regulação emocional. Em um cenário de ansiedade constante, o retrô oferece previsibilidade.
Além disso, há uma construção de identidade em jogo. Em uma realidade onde tudo tende à padronização, especialmente nas redes sociais, o vintage permite diferenciação.
“Ao adotar estéticas de outras eras, os jovens expressam quem são fora da padronização algorítmica, encontrando um senso de pertencimento dentro de novos grupos que valorizam o ‘sentir’ sobre o ‘clicar’”, afirma a psicóloga.
Em Natal, esse movimento ganha forma concreta em espaços como a Discol, loja fundada em 1975 no centro histórico da cidade. O local, que começou como uma loja de discos, hoje funciona como um ponto cultural e de encontro para artistas e amantes da música.
Gabriela Almeida, filha do fundador Luiz Brás, acompanha essa transformação de perto.
“Eu sempre reflito um pouco sobre o impacto da pandemia nas mídias físicas, como as pessoas ficaram muito ‘trancadas’ em casa e obrigadas ao contato apenas por redes sociais e internet, acho que isso levou todo mundo a buscar alternativas mais ‘analógicas’ e palpáveis de lazer e afins”.
A pandemia, nesse sentido, aparece como ponto de virada. O excesso de digitalização intensificou o desejo por aquilo que é físico, tátil e concreto. O que antes era tendência passou a ser necessidade.
No fim, a relação da geração Z com o vintage não é exatamente sobre o passado. É sobre o presente. Sobre a tentativa de construir uma vida que não seja totalmente mediada por telas, respostas rápidas e consumo automático.
Como resume a psicóloga: “no fim, a Geração Z não está apenas consumindo o passado; ela está tentando reconstruir um presente que tenha mais textura, mais calma e, principalmente, mais verdade.”
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