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Médico, padre e pastor defendem integração para cuidar da saúde mental

26/05/2026


Em podcast da TV Agora RN, convidados relatam experiências com dependentes químicos, criticam precariedade da assistência pública e afirmam que espiritualidade pode ajudar no enfrentamento do sofrimento emocional

A crise de saúde mental que atravessa o Brasil contemporâneo, marcada pelo avanço da ansiedade, da depressão, da dependência química e dos conflitos sociais, foi tema de debate no podcast Conexão Saúde, da TV Agora RN. Em uma conversa que reuniu o psiquiatra Francisco das Chagas Rodrigues, o pastor William Cabral e o padre Francisco das Chagas de Souza, os convidados defenderam a importância da espiritualidade no acolhimento de pessoas em sofrimento psíquico e relataram experiências vividas em projetos comunitários voltados à população vulnerável.

Ao longo da entrevista, os participantes discutiram desde casos concretos de pacientes com transtornos mentais graves até os efeitos da polarização política, do isolamento social e da perda de propósito na vida das pessoas. Também houve críticas à insuficiência das políticas públicas de saúde mental e à dificuldade de acesso a tratamento especializado, especialmente para dependentes químicos e famílias em situação de vulnerabilidade.

Psiquiatra com atuação em projetos sociais na comunidade da Praia do Meio, em Natal, Dr. Rodrigues afirmou que a assistência em saúde mental não pode ignorar a dimensão espiritual da existência humana. Segundo ele, muitos pacientes chegam aos serviços de saúde marcados por desesperança, conflitos familiares e comportamentos autodestrutivos.

“A nossa humanidade sofre muitas influências ligadas ao lado material, com relação aos instintos que nós possuímos de natureza animal”, afirmou. Para o médico, há pacientes que acabam mergulhando em processos de violência, dependência química e sofrimento emocional profundo. “Essas influências começam a fazer com que alguns de nossos irmãos criados por Deus passem a se comportar de forma anômala, querendo destruir os outros, roubar, estuprar, fazer diversas iniquidades”, declarou.

Durante o programa, Rodrigues relatou o caso de um paciente aprovado em concurso da Caixa Econômica Federal que desenvolveu dependência de álcool e maconha, passando a sofrer crises psicóticas recorrentes. Segundo ele, o homem alternava períodos de internação entre Paraíba e Rio Grande do Norte, sem conseguir abandonar o vício.

“Ele não conseguia parar de usar bebida e maconha e ficava nesse pingue-pongue da Paraíba para o Rio Grande do Norte. Consequência: num dia que ele voltou para uma crise dessa, a mãe que o acolhia faleceu”, relatou. Sem apoio familiar, o paciente acabou permanecendo hospitalizado por falta de estrutura pública adequada. “O Estado não tem uma residência terapêutica para ele ficar”, disse.

Para o psiquiatra, situações como essa revelam não apenas falhas estruturais do sistema público, mas também a necessidade de um acolhimento humano mais amplo. “Os pacientes psiquiátricos abrem um canal, um portal, onde as influências espirituais começam a agir”, afirmou. Segundo ele, em alguns casos, “o próprio remédio que a gente passa para eles não tem efeito”.

A partir dessa percepção, Rodrigues defendeu a integração entre tratamento médico e espiritualidade. “É importantíssimo o trabalho espiritual”, declarou, ao citar ações realizadas junto a dependentes químicos em comunidades terapêuticas e projetos sociais.

Trabalho social e acolhimento

Ao longo da entrevista, os convidados destacaram o trabalho realizado por voluntários na Associação Cristã dos Moradores e Amigos da Praia do Meio, onde igrejas, lideranças religiosas e profissionais de saúde desenvolvem ações de acolhimento social e emocional.

O padre Francisco das Chagas de Souza afirmou que o cuidado com pessoas em sofrimento faz parte da própria missão histórica da Igreja Católica. Segundo ele, a evangelização não pode estar separada da dignidade humana e da assistência social. “A evangelização é exatamente trazer de novo a dignidade da pessoa humana”, afirmou. “Onde existe a pessoa humana, aí deve acontecer a ação da Igreja.”

Padre Chagas também chamou atenção para o avanço silencioso do sofrimento psíquico dentro das comunidades religiosas. Segundo ele, muitas pessoas procuram as igrejas buscando ajuda espiritual, quando, na verdade, enfrentam transtornos emocionais ou psicológicos que exigem acompanhamento especializado.

“Eu defendia sempre que em cada paróquia deveria ter um psicólogo”, afirmou. “As pessoas vinham para a confissão e o problema não era de confissão. O problema não era o pecado, era o sofrimento.”

Já o pastor William Cabral associou o fortalecimento emocional à vivência prática da fé cristã. Segundo ele, espiritualidade não significa apenas repetir versículos bíblicos, mas transformar ensinamentos religiosos em prática cotidiana.

Durante a conversa, o pastor relatou uma experiência vivida no interior do Estado, quando encontrou um homem simples que descreveu a Bíblia como “o manual da vida”. Segundo ele, a cena marcou sua trajetória religiosa. “Quando nós compramos qualquer eletrodoméstico, pegamos primeiro o manual”, comparou. “Assim também é com o homem. O nosso Criador nos deixou um manual.”

William Cabral também abordou a realidade enfrentada por crianças e adolescentes atendidos pela rede de proteção social em Natal. Conselheiro tutelar na Zona Leste da capital, ele afirmou que há enorme dificuldade para garantir atendimento psicológico rápido a menores em sofrimento psíquico.

“Muitas vezes nós nos deparamos com situações em que é necessário urgentemente um tratamento psíquico para uma criança, e demora 15, 20 dias”, afirmou.

 

Segundo ele, mesmo profissionais comprometidos dentro da administração pública enfrentam limitações estruturais. “Muitas vezes eu já vi secretários tirarem dinheiro do próprio bolso para tentar resolver a situação”, declarou.

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