Educadores relatam ansiedade e isolamento entre estudantes no RN
28/03/2026

Pandemia, pressão social e uso excessivo de celular são apontados como fatores associados; dados mostram necessidade de integração entre escola, famílias e serviços de saúde.
Um levantamento da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024 aponta que 1 em cada 10 estudantes do Rio Grande do Norte sente que a vida não vale a pena ser vivida, acendendo um alerta entre pais, professores e profissionais de saúde. Os dados foram divulgados no último dia 25 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e refletem mudanças percebidas também no cotidiano das escolas.
Educadores relatam aumento da fragilidade emocional entre jovens, fenômeno associado a fatores como pandemia, pressão social e uso intensivo de tecnologias. Segundo Lidiane Alves, coordenadora pedagógica do Colégio Ágora, houve mudança no comportamento dos estudantes ao longo dos últimos anos. “Antes eles tentavam mascarar, maquiar essas fragilidades, mas hoje não. Então temos observado alguns episódios de choro e alunos que falam abertamente sobre suas dores porque a nova geração grita para o mundo o que está sentindo”, relatou.
No ambiente escolar, professores também identificam transformações progressivas no comportamento dos alunos. O professor Diego Medeiros, que leciona do 6º ao 9º ano, observa que a participação diminui com o avanço da idade. De acordo com ele, a mudança está relacionada à pressão por pertencimento. “Eles passam a agir de acordo com o grupo que acham legal. Mesmo que não seja o que sentem, vão se moldando para se encaixar.”
Esse processo, segundo o docente, resulta em retração e padronização de comportamentos. “A principal mudança é a retração. Eles deixam de ser como são para se tornarem mais padrão, mais iguais aos outros”, afirma. Em situações mais graves, o efeito pode ser o isolamento. “Tem alunos que não conseguem pertencer a grupos e ficam isolados. Usam casaco nesse calor de Natal, não interagem. A gente percebe isso claramente com o tempo”, disse.
Outro fator apontado pelos profissionais é o impacto do uso de celulares e redes sociais. “[O celular] não tira um pouco da atenção, ele tira totalmente”, disse o professor. Ele relata que restrições ao uso em sala trouxeram efeitos imediatos. “O celular é uma parte quase anatômica deles. E ter tirado naquela época foi fundamental.”
Uma lei federal que entrou em vigor em janeiro de 2025 estabeleceu limites para o uso de celulares nas escolas para fins não pedagógicos. A norma permite o uso dos dispositivos só em situações específicas, como atividades pedagógicas, acessibilidade, inclusão e necessidades de saúde.
A coordenadora pedagógica também relaciona as mudanças comportamentais ao ambiente digital. “A convivência social dos jovens se tornou muito virtual, com menos momentos coletivos, de conversar, de brincar, de fazer trocas até mesmo nos intervalos. Então os profissionais de educação têm se esforçado para que essas relações voltem a aparecer”, pontuou.
A ansiedade aparece como um dos principais elementos nesse cenário. Para Diego Medeiros, há dificuldade dos estudantes em lidar com frustrações. “Os alunos estão num nível de ansiedade que, aparentemente, eles não podem fracassar. O fracasso, o erro, o não, são coisas que não estão no vocabulário deles. Aí, isso faz com que qualquer mínimo tropeço, qualquer mínimo erro, se torne uma coisa grandiosíssima, ou até um bloqueio para conseguir seguir à frente”, afirmou.
Ansiedade entre jovens
Do ponto de vista clínico, o psiquiatra Marcelo Falchi alerta que pensamentos recorrentes sobre a vida não valer a pena exigem atenção especializada. “Se esses pensamentos são recorrentes de que a vida não vale a pena ser vivida, isso pode indicar que tipo de transtorno. Difícil dizer um único transtorno, difícil dizer se isso necessariamente envolve um transtorno mental. É um sinal de alarme, de alerta clínico, que pode indicar uma série de condições”, explicou.
Segundo ele, a recorrência desses pensamentos é um fator central na avaliação. O especialista também aponta diferenças na forma como o sofrimento se manifesta entre meninos e meninas. “Diria que as meninas têm uma prevalência maior de experimentar o sofrimento como tristeza mais persistente, a sensação de que a vida não vale mais a pena ser vivida, e muitas vezes com autolesões. Com os meninos, a expressão do sofrimento mental, muitas vezes ela se dá de maneira externalizante. Então pode ser mais irritável, mais uma adoção de condutas arriscadas, uso de substâncias, exposição a risco e menos verbalização emocional.”
Para o psiquiatra, essas diferenças também são influenciadas por fatores culturais. “Acho que a gente pode encontrar razões tanto de origem biológica, mas eu acreditaria muito aqui nas razões culturais, como também a sociedade molda a forma como a gente percebe o nosso sofrimento e como nos permite se expressar através desse sofrimento.”
Entre os principais fatores de risco para agravamento do quadro, ele destaca histórico de tentativas anteriores, desesperança intensa e mudanças recentes no comportamento. “Acho que alguns pontos que chamam muita atenção é, particularmente, se a pessoa já teve alguma tentativa prévia, ou de suicídio, ou autoagressão prévia, quando ela apresenta um quadro de uma desesperança muito intensa, piora mais recente, uma ansiedade muito intensa, ou uma anedonia (perda de interesse) aguda.”
O médico também cita impulsividade, uso de substâncias e contextos de violência e bullying como elementos de risco. Ao diferenciar tristeza comum e depressão, ele explica que a primeira tende a ser passageira e reativa, enquanto a segunda é persistente e afeta o funcionamento do indivíduo.
“Um quadro depressivo é algo mais persistente, que aparece na maior parte dos dias, com redução do interesse pelas atividades, perda de prazer, alterações de sono, apetite, energia e prejuízo no funcionamento, como queda no rendimento escolar e nas relações.”
Em adolescentes, a depressão pode se manifestar de forma diferente. “A pessoa fica mais irritada, pode se isolar, ter problemas no desempenho e apresentar comportamentos que não eram típicos”, afirmou.
No campo das políticas públicas, o psiquiatra defende maior integração entre escolas e serviços de saúde, com presença de profissionais nas Unidades Básicas de Saúde, além de campanhas e identificação precoce de sinais de risco.
Sobre tratamento, ele ressalta que a medicação não é a primeira abordagem. “A medicação nunca é a primeira opção para nenhum quadro de sofrimento emocional, salvo exceções. Ela é indicada em quadros moderados a graves, persistentes, com prejuízo funcional ou risco aumentado”. E reforça: “Os antidepressivos são utilizados, mas sempre com monitoramento e, tanto quanto possível, em combinação com psicoterapia.”
Apoio
Nas escolas, o desafio é conciliar ensino e cuidado. Na rede privada, costuma haver suporte psicológico e programas voltados ao desenvolvimento emocional. Na rede pública, apesar das limitações, iniciativas individuais buscam suprir lacunas. “Tem recreios que eu fecho minha sala para uma ‘consulta com o Tio Chico’. Para um momento de desabafo, para um momento de conversar sobre o que eles não conseguem conversar em casa e tudo mais”, relatou Diego.
Em um dos casos acompanhados, ele identificou sinais de depressão em um estudante. “O aluno começou a me contar que não tinha mais vontade de sair da cama”, conta.
Para os profissionais, ações contínuas e espaços de escuta individual são fundamentais. “Porque também não adianta ficar só em questões gerais, fazer palestras, círculos de conversas, e nenhum momento isolado para aquela criança conseguir se abrir em um momento privativo”, afirma o professor.
Lidiane reforça a necessidade de presença constante de equipes especializadas. “É muito importante a presença do setor de psicologia todos os dias na escola, com o hábito de entrar em sala de aula para conhecer todos os alunos.”
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